Eu sei como é. Conheço o cheiro dos hospitais. Sei da dor na cabeça e da confusão e do medo do fim a aproximar-se. Já senti a maca por baixo das costas, enquanto esperava no corredor, numa espécie de silêncio surdo rodeado de gente. Já perdi a consciência do mundo à minha volta e dos que se sentaram na sala de (des)espera.

Quando voltei a mim era outra. Deixei para trás metade: a força dos músculos, a fala, mas também tudo o que podia ser e não foi.

Metade de mim perdida e na boca dos outros a resposta constante de que sorte que eu tive. Podia ter sido muito pior.

Agora é a tua vez. Lamento muito.

Mas sabes, vejo que, contigo, o país acordou para o AVC. Tu, o “homem que mordeu o cão”, o tipo que todos os dias nos arranca gargalhadas, que todos conhecemos, mas que não se arma em bom, não merecias isto. Mas aconteceu. E Portugal acordou para o AVC.

Agora, tenho a certeza de que o país vai também ouvir falar da Via Verde do AVC, de como em tantos casos ela não funciona e é preciso mesmo – MESMO – melhorá-la. Agora sei que vais levar à rádio o tema da reabilitação após a alta hospitalar, feita em casa, onde as principais dificuldades surgem. Tenho esperança de te ouvir falar um destes dias de Terapia Ocupacional, e que expliques ao país a enorme diferença que faz ter um terapeuta ocupacional na recuperação do AVC. Quero acreditar que ajudarás a espalhar a mensagem da Associação Portugal AVC e do incrível trabalho que esta faz com os Grupos de Ajuda Mútua. E sei que vais perceber que os cuidadores informais, aqueles que cuidam realmente da vítima de AVC, precisam de ativistas que defendam os seus direitos.

Desculpa estar a aproveitar esta situação terrível para trazer estes assuntos à luz do dia. É que seria ainda mais inapropriado, face a esta oportunidade, recusar-me a fazê-lo. Todas as pessoas que sofreram um AVC, e todas as famílias que sofreram um AVC, sabem como é importante.

Agora descansa, recupera, pois a tua missão acabou de se tornar ainda mais especial.

Com os meus sinceros votos de rápidas melhoras e de persistente coragem,

Eu Consigo

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