Há 3 ou 4 anos, uma amiga próxima pediu-me socorro. Tinha sido agredida em casa durante várias horas, física e verbalmente.
Quando cheguei ao local encontrei objectos partidos, muitas coisas fora do sítio, e a minha amiga a escorrer sangue pela cabeça e cara. Chorava, muito perturbada. Tinha as mãos arranhadas, nódoas negras nos braços.
Esta é a primeira vez que escrevo sobre este assunto.
A mulher que causou tudo isto era, como ela, idosa, mas mais forte que ela. Quando a encontrei, estava a fugir pelo muro do jardim. Estava também desgrenhada, abalada. É certo que a minha amiga se defendera, mas aquela mulher ainda tinha força e agilidade para saltar um gradeamento que tem quase a minha altura.
Claramente, tinha-me visto chegar e não se queria cruzar comigo.
Chamei a polícia e uma ambulância. Só que quando esta chegou, a mulher, que ficara do lado de fora da casa da minha amiga, foi socorrida em primeiro lugar. Segundo me explicaram, socorrem a primeira pessoa que consideram necessitar de auxílio, independentemente de quem os chamou. Teve de ser chamada uma segunda ambulância.
Ambas foram para o hospital. A agressora, primeiro. A minha amiga, depois de ser assistida no local, prestar declarações à polícia e aos bombeiros, explicar detalhadamente o que se tinha passado, e dar, com a minha ajuda, detalhes sobre o seu estado de saúde geral, a medicação que tomava, e outros dados necessários.
Quando cheguei ao hospital, a minha amiga estava numa maca no hall de entrada, visivelmente prostrada. Os bombeiros faziam a admissão.
A razão por que escrevo este texto foi o que se passou a seguir.
A minha amiga foi admitida nas urgências e a maca foi levada para dentro. Iria passar algumas horas no espaço onde várias macas estão “estacionadas” sob a supervisão de enfermeiros, auxiliares e a ocasional passagem de algum médico.
E foi aí que aconteceu.
A maca dela foi colocada praticamente encostada à maca da sua agressora.
Ali. Ao lado da pessoa que, poucas horas antes, a tinha agredido física e verbalmente durante tanto tempo.
E assim permaneceu durante horas, apesar dos meus apelos e avisos junto dos profissionais de saúde de que sofrera uma situação traumática e não podia ser submetida a mais tempo de proximidade daquela mulher.
Nenhum daqueles profissionais queria causar dano. Mas, naquele momento, o dano estava a acontecer.
Quando o sistema não integra a vulnerabilidade
O ponto aqui não é um erro isolado. É uma questão estrutural.
Porque continuam os nossos serviços de saúde pouco preparados para lidar de forma diferenciada com situações de trauma? Por que motivo se confunde, tantas vezes, tratamento igualitário com tratamento igual para todos, independentemente das circunstâncias?
Existe hoje um corpo consistente de conhecimento que nos mostra que o trauma não é apenas um acontecimento. É uma experiência que fica inscrita no sistema nervoso, no corpo, na forma como a pessoa percebe o mundo e se sente segura — ou insegura — nele. E isso deve necessariamente influenciar a forma como prestamos cuidados.
Quando esta dimensão não é considerada, a vulnerabilidade da pessoa fica exposta dentro do próprio sistema que a deveria proteger.
O trauma que não vemos
O que me preocupa verdadeiramente não é este caso.
É que, se temos dificuldade em lidar com situações em que o trauma é tão evidente, como gerimos os casos em que ele não vem identificado ou explicitado?
Com quantas pessoas lidamos diariamente que sofreram traumas e que nós não sabemos?
E, indo mais fundo, com quantas lidamos que nem sequer têm consciência dos traumas que sofreram, mas vivem com as suas consequências?
Uma responsabilidade ética e profissional
Há uma responsabilidade que todos temos, enquanto pessoas e, de forma ainda mais clara, enquanto profissionais de saúde: estar conscientes da presença possível de trauma na vida de quem acompanhamos.
Em 2026 já não podemos continuar a encarar os utentes como meros aglomerados de sintomas que importa tratar com os recursos disponíveis.
A pessoa que nos chega não é apenas um corpo com sinais clínicos. É alguém cuja sensação de segurança pode estar profundamente comprometida.
Ignorar o trauma não reduz apenas o potencial da intervenção. Pode, inadvertidamente, agravar o sofrimento.
Foi esta consciência que me levou a acolher com sentido de responsabilidade a proposta da formadora e especialista em trauma Camila Leite, para trazer ao público da Eu Consigo uma formação focada na intervenção no trauma em contexto de saúde: Intervenção no Trauma – Neurobiologia, corpo, linguagem e autorregulação na prática terapêutica – Eu Consigo.
Acredito que este trabalho conjunto pode ajudar profissionais de saúde a desenvolver conhecimentos sólidos e ferramentas práticas para intervir de forma informada, ética e sensível ao trauma.
Porque o paradigma tem evoluído. A questão é saber: até que ponto estamos a evoluir com ele?
O trauma continuará a chegar aos nossos serviços. O que fará a diferença é a consciência com que escolhemos exercer.
Patrícia Protásio
Coordenadora Pedagógica da Eu Consigo



