Porque precisamos de espaços e pessoas informadas sobre trauma

Vivemos numa época em que muitas pessoas estão cansadas, fartas de ouvir falar de guerras, incoerência humana, polarização e injustiça.

Este cansaço vai muito para além do físico. Tem impacto mental e emocional. Há um esgotamento silencioso a atravessar famílias, relações, escolas, hospitais, empresas e até os próprios espaços terapêuticos.

Corpos em hipervigilância, irritabilidade e intolerância constantes. Relações marcadas por reatividade, urgência e desconexão, que acabam por gerar falta de confiança e uma sensação persistente de insegurança.

E, muitas vezes, continuamos a chamar “exagero”, “fraqueza”, “drama” ou “falta de controlo” à instabilidade emocional, às dores invisíveis no corpo, à névoa mental, à exaustão e à necessidade constante de fazer sempre mais para ser reconhecido. Tudo isto pode ser, na verdade, um sistema nervoso sobrecarregado há demasiado tempo.

É aqui que a abordagem informada sobre trauma se torna não apenas importante, mas profundamente necessária, tanto nas nossas relações interpessoais como nos diferentes ambientes de apoio e serviço à comunidade.

Imagina um balcão de atendimento, seja de que serviço for, em que o profissional destrata as pessoas em função da etnia, da forma de vestir ou da aparência física.

Imagina uma situação no trânsito em que todos estão tão focados nas suas próprias urgências que já nem dão passagem, ou quase atropelam um idoso que atravessa lentamente a passadeira.

Imagina, num hospital, uma mulher negra a dar à luz o seu primeiro filho e ainda ter de ouvir que pessoas daquela raça “aguentam melhor a dor”.

Imagina… só imagina.

Como te sentes?

Infelizmente, estes relatos não são fantasiosos. São reais. Situações às quais qualquer um de nós pode estar exposto.

Uma abordagem sensível ao trauma não significa tratar todas as pessoas como frágeis ou incapazes. Significa compreender que, por detrás de muitos comportamentos, existem histórias, adaptações e experiências que moldaram a forma como alguém sente segurança, perigo, vínculo e pertença.

Significa perceber que o nosso sistema nervoso guarda registos aprendidos sobre como devemos responder em determinadas situações, atribuindo significados automáticos às experiências vividas. E esses significados ativam respostas autonómicas no corpo, muitas vezes sem que nos apercebamos disso. E algumas delas podem trazer o registro de uma traumatização.

A nossa linguagem — oral, corporal ou escrita — e a forma como comunicamos podem regular ou desorganizar alguém. Ambientes excessivamente críticos, imprevisíveis ou invasivos também podem perpetuar estados invisíveis de ameaça.

E isto não se aplica apenas à terapia. Aplica-se à saúde, à educação, às relações, às empresas, à parentalidade e à sociedade em geral.

Precisamos de mais profissionais capazes de olhar para além do sintoma.

Mais espaços onde a escuta seja segura.

Mais relações onde não seja necessário entrar em defesa para existir.

Num mundo cada vez mais acelerado, polarizado e, por vezes, pouco ético, criar ambientes reguladores é quase um ato de resistência humana.

Pessoas reguladas e conscientes da sua história e do seu propósito tendem a relacionar-se melhor, a comunicar com mais consciência e a agir com menos violência, impulsividade e desconexão.

A segurança emocional muda a forma como pensamos, sentimos e escolhemos.

E talvez uma das grandes perguntas do nosso tempo seja esta:

Que tipo de humanidade estamos a ajudar a construir através da forma como cuidamos uns dos outros?

Aqui, deste lado, continuo a acreditar profundamente que a mudança não começa apenas nas grandes estruturas. Começa em gestos simples e significativos, como a forma como olhamos alguém nos olhos. Como escutamos verdadeiramente o que uma pessoa tem para dizer.

Como te sentes só de imaginar, agora, um mundo onde as pessoas:

• pausam antes de reagir
• escutam sem julgamento
• oferecem escolha e autonomia
• comunicam de forma clara, respeitosa, não invasiva e emocionalmente reguladora
• reconhecem o impacto da história de vida, da cultura, do contexto social, da discriminação, do género e das experiências coletivas na forma de estar e de se relacionar no mundo

Imaginaste?

Talvez esse mundo não consiga mudar o planeta inteiro de uma só vez. Mas pode ser suficiente, se cada um de nós escolher tornar-se um agente de mudança.

Porque, muitas vezes, a verdadeira transformação não nasce da força.

Nasce da segurança.

Camila Leite
Terapia Somática e Trauma

Formadora de Intervenção no Trauma – Neurobiologia, corpo, linguagem e autorregulação na prática terapêutica

camilaleitesomatica.pt

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *